Depois, enfrentar problemas com preços, fluxo de caixa, gestão de estoque e capacitação da equipe, empresas superam a crise

Bruna e Jose Tadeu Oliveira. Foto: Rodrigo Macedo

Para evitar que uma empresa feche as portas, o primeiro passo que deve ser dado pelos empreendedores é reconhecer que as coisas não vão bem. “Quando o empresário entende que o negócio está em crise, tem de ter firmeza para implantar as mudanças necessárias para reverter o quadro”, diz o especialista em gestão de crise e sócio da Artur Lopes & Associados, Artur Lopes.

Essa está sendo a postura adotada pelo CEO da Linna Lingerie, Daniel Argalji, para tirar do vermelho a empresa fundada por seu pai, em 1999. “Em março de 2016, uma grande rede cancelou um pedido que já estava pronto e correspondia a um mês de faturamento”, conta.

Além disso, a inadimplência aumentou, intensificando a crise. Nesse momento, ele assumiu o controle do negócio, no qual sempre trabalhou.

“Quando o empresário está acostumado a operar de maneira estável e as coisas começam a ir mal, demora um tempo para perceber que está perdendo o controle. Quando caiu minha ficha, vi que precisava de uma consultoria que apontasse caminhos para a recuperação.”

Segundo ele, a Linna poderia estar mais preparada para enfrentar a crise se tivesse estrutura interna mais organizada e eficiente, com a equipe gerando melhores resultados.

“Aprendi isso com a consultoria, que identificou problemas em todos os setores. Fizemos muitas mudanças. Tive de demitir parte da equipe pela queda de faturamento, mas também substituímos muitas pessoas para modificar a cultura empresarial, contratando profissionais com outro ritmo. Isso tem nos ajudado bastante.”

Daniel Algarji. Foto: Tainá Castro

Com as mudanças, Argalji diz que passou a privilegiar clientes varejistas, aumentando a pulverização. “Com isso, conseguimos lançar produtos mais elaborados e segmentados.”

Os fundadores do Café Olinto, Bruna e José Tadeu Oliveira, também viram a curva de crescimento que serviu de incentivo para a abertura da segunda unidade, inverter o curso.

“A nova unidade começou a ser afetada pela crise, porque ficava dentro de uma grande loja de departamentos, que passou a ter queda na circulação de clientes”, conta Oliveira.

Há um ano e meio, o casal também contratou uma consultoria e iniciou uma série de modificações. “Com a ajuda do consultor foi possível equalizar as contas, organizar a gestão, cortar pessoal e reposicionar a cafeteria como loja de cafés especiais”, afirma.

Segundo o diretor de novos negócios da consultoria Global Trevo, Eduardo Peres, todas as consultorias do segmento de negócios estão tendo alta demanda, porque as empresas tiveram redução da receita ou da margem operacional, comprometendo o fluxo de caixa.

“Quando isso acontece, muitos empresários atiram para todos os lados, o que acaba sendo um erro. Na ânsia de manter o faturamento, praticam precificação ou prazo de pagamento inadequados, isso reduz a rentabilidade e prejudica ainda mais a empresa”, afirma.

Eduardo Peres. Foto: Alex Silva/Estadão

Peres diz que nesse cenário é importante manter o foco no negócio central da empresa e ter cuidado ao definir os preços, para ter rentabilidade adequada.

“O empresário também deve avaliar a produtividade da equipe e o capital circulante líquido, que envolve o giro de estoque e os prazos de pagamento e de recebimento. Recomendamos, ainda, a revisão de processos, renegociação de preços com fornecedores ou a realização de novas cotações. Outro custo que pode ser negociado é o do aluguel do imóvel.”

Lopes acrescenta que para se recuperar, a empresa deve buscar ferramentas e conhecimentos que não estavam disponíveis quando a crise se instaurou. “O empresário deve procurar ajuda que propicie intervenção rápida e precisa. Assim, será possível se manter no mercado e voltar a produzir resultados sustentáveis”, diz.

Segundo ele, todo empreendedor, em tese, deveria acompanhar os indicadores do negócio. “Quando os indicadores se deterioram, algo não vai bem. Entretanto, várias companhias sequer possuem indicadores atualizados. Nesse caso, devem observar os sinais negativos.”

Foram esses sinais que fizeram com que os fundadores da Now Nutrição Esportiva, os irmãos Diego e Tiago Diniz, resolvessem dar alguns passos para trás para reorganizar a empresa. “Chegamos a ter onze pontos de venda. Por fazermos todo o trabalho de distribuição, nossa margem era muito pequena. Por isso, qualquer inadimplência afetava muito o negócio. Nosso crescimento ocorreu sem nenhuma estrutura e a consequência foi aumento de despesas e uma série de prejuízos”, diz Diego.

Diego Diniz. Foto: Christian Meyn

Além de vender ou fechar nove das onze lojas, investiram em sistema de controle de entrada e saída dos produtos e no treinamento da equipe. “Outra ação foi fazer mix de produtos com alto nível de variedades. Assim, conseguimos sair da crise e o negócio voltou a crescer. Depois disso, resolvemos chamar uma consultoria para termos um crescimento saudável.”

Diego afirma que a consultoria realizou análise do negócio, arrumou o que ainda tinha de ser corrigido e formatou a marca para se tornar uma franqueadora. “A partir do ano passado, passamos a ter aumento significativo de lojas. Hoje, temos dez unidades próprias e quatro franqueadas, todas instaladas em shoppings”, conta.

Especialista em reestruturação de empresas, Luís Alberto de Paiva diz que o primeiro cuidado a ser tomado pelo empreendedor para evitar que a empresa passe por dificuldades é se manter sempre atento às vendas e à margem que consegue auferir.

“O empresário não deve perder de vista o custo do negócio. O que mais vejo são empresários que no apetite de buscar crescimento prejudicam extremamente a margem de lucro”, afirma.

O Olinto Café, fundado pelo casal Bruna e José Tadeu Oliveira, é um exemplo de negócio que passou por dificuldades pela má gestão financeira.

“Somos da área de comunicação e não tínhamos nenhuma visão administrativa. Faltava dinheiro para o fluxo de caixa e não usávamos ferramenta de gestão”, conta Oliveira.

Fundada em 2013, a marca que opera com duas unidades passou a ter prejuízo com o agravamento de crise. “No final de 2015, contratamos consultoria que identificou várias melhorias que podíamos implantar.”

Oliveira aprendeu com o consultor a fazer análise dos dados. “Controle e conhecimento do negócio são imprescindíveis para o crescimento. O empreendedor não pode ter medo de buscar ajuda. Nós reconhecemos nossas limitações, buscamos ajuda e conseguimos fechar 2016 com crescimento de 24% no faturamento, o que representa aumento de receita de R$ 400 mil”, afirma.

José Tadeu de Oliveira. Foto: Rodrigo Macedo

Ele conta que a unidade que estava com média de queda no faturamento de 10% a 15% ao mês, voltou a operar no azul e se tornou sustentável, com 10% de lucro líquido ao mês. “Com a consultoria, colocamos o caixa em ordem e voltamos a crescer.”

Segundo ele, a economia mensal gerada pelas modificações na unidade instalada dentro de uma loja de departamentos, gira entre R$ 10 mil e R$ 15 mil por mês. Na outra loja, a economia varia de R$ 15 mil a R$ 20 mil.”

Entre as mudanças realizadas no Olinto Café está a troca de fornecedores, redução de equipe, renegociação do aluguel e das tarifas de cartões.

“Reestruturamos o negócio no ápice da crise e conseguimos crescer. Agora, estamos formatando o negócio para operarmos como franquia. Vamos oferecer três modelos: restaurante, fast food e quiosque”, conta.

Cuidado. A recomendação de Paiva é que o crescimento sempre ocorra com cautela e pé no chão, para que seja saudável. “Mesmo assim, o empreendedor ainda terá uma série de outros problemas para se preocupar, como a liquidez do mercado, os altos impostos e o custo trabalhista”, ressalta.

Segundo ele, para ser saudável a empresa deve operar com margem de lucro acima de 25% e com níveis de endividamento baixo. “Também é importante trabalhar com profissionais competentes e com foco nos controles e resultados.”

FONTE: ESTADÃO